Controlando sintetizadores analógicos via MIDI

Por | 9 de outubro de 2017

De alguns anos para cá, tem havido um interesse crescente nos antigos sintetizadores analógicos. Muitos músicos (re)descobriram as sonoridades dos velhos synths, e estão querendo produzi-las diretamente da fonte, e não por samples e simulações digitais. Tenho percebido isso principalmente nos produtores de música eletrônica.

A realidade é que essa redescoberta criou uma movimentação significativa no mercado de sintetizadores, tanto na direção aos instrumentos antigos quanto na produção de novos instrumentos baseados na “velha” tecnologia. Nos últimos anos, surgiram empresas pequenas oferecendo sintetizadores analógicos, modulares ou não, mas também os grandes fabricantes mundiais, como Korg, Roland e Yamaha, estão desencavando (no bom sentido) projetos de mais de trinta anos e relançando-os no mercado. Isso sem falar de alguns projetistas das décadas de 1970/80, como Dave Smith, Roger Linn e Tom Oberheim, que voltaram à atividade com uma disposição de fazer inveja a qualquer jovem entusiasta dos sintetizadores. E não poderíamos deixar de mencionar os sintetizadores analógicos modulares produzidos atualmente em nosso país por Vinícius Brazil (VBrazil Systems, RJ) e por Paulo Santos (Electronic Music Works, SP), assim como os instrumentos artesanais de Arthur Joly (SP).

Essa fase nostálgica tem um pouco de cult, mas também tem muito a ver com características que são peculiares aos sintetizadores analógicos. Em primeiro lugar, no sintetizador analógico todo o processo de síntese, do início ao fim, acontece no domínio analógico, onde o sinal de áudio está lá na forma de tensão/corrente trafegando pelos circuitos – em outras palavras, o sinal é o próprio sinal (enquanto que num sintetizador digital o sinal na verdade é gerado e processado na forma de representação numérica – aproximada – do que deveria ser, e só se torna de fato um sinal eletrônico no final do processo, ao ser convertido no circuito do DAC). Além disto, por causa da maneira como são construídos os sintetizadores analógicos, com componentes “discretos”, isto é, individualizados, um instrumento sempre soa um pouquinho diferente de outro supostamente igual. Isto acontece porque os circuitos são compostos por uma grande quantidade de componentes, cada qual com suas tolerâncias de valores, que podem reagir diferentemente às variações de temperatura, de alimentação elétrica, e ao próprio sinal. É por isto que exemplares de um mesmo modelo soam muito parecidos, mas não rigorosamente iguais. Já num instrumento digital, onde os circuitos estão integrados em um ou poucos chips, essas diferenças são absolutamente minimizadas.

Muitos músicos não percebem ou não se importam com essas diferenças, e é por isto que os instrumentos digitais são mais usados, não apenas porque também produzem sonoridades interessantes, mas certamente porque oferecem um custo-benefício melhor, com recursos de memorização, maior polifonia, e, principalmente, porque são mais baratos. De qualquer forma, a realidade é que os analógicos ressurgiram e vêm ocupando um espaço significativo nos setups dos artistas.

Bem, a sonoridade analógica é muito legal, mas o retorno ao passado pode trazer algumas dificuldades, principalmente quando algumas coisas já avançaram e se consolidaram. Um dos aspectos que mais evoluíram com a tecnologia digital é a capacidade de se controlar coisas a distância. No caso dos instrumentos musicais, isto foi resolvido há muitos anos com a criação do padrão de comunicação MIDI (Musical Instrument Digital Interface).

Desenvolvido em conjunto por alguns engenheiros de empresas fabricantes de instrumentos, dentre eles o já citado Dave Smith, da Sequential Circuits, o MIDI surgiu oficialmente no evento NAMM de 1983, quando um Sequential Prophet 600 e um Roland Jupiter 6 foram interligados e funcionaram juntos via MIDI. A partir de então, uma nova onda atingiu o cenário musical. O controle através do protocolo MIDI viabilizou o uso dos computadores na música, trazendo grandes mudanças nos processos de composição, arranjo e performance. Sua eficiência é inegável, já que depois de mais de 30 anos ainda está aí em pleno uso, apesar de ser um protocolo baseado em 8 bits e trafegar a uma velocidade “ridícula” de 31.25 kbps! O fato é que a indústria musical hoje continua assentada nessa tecnologia, com bilhões de equipamentos no mundo inteiro se comunicando via MIDI.

Há mais de três décadas, portanto, nos acostumamos a usar o MIDI em nossos sistemas musicais. De lá para cá, surgiram os equipamentos controladores, com teclado ou não, que permitem ao músico acionar seus instrumentos musicais, equipamentos de áudio e softwares. Há alguns anos, o MIDI também foi incorporado ao protocolo USB, que passou a ser o tipo de conexão principal em vários equipamentos, facilitando a interligação com os computadores.

O problema é que os sintetizadores analógicos da era pré-MIDI, e também a maioria dos modulares analógicos modernos, não foram projetados para isto. Na verdade, o processo de controle nos synths analógicos é outro, bem diferente, e é esta questão que vamos abordar aqui.

Sintetizadores analógicos modulares

Embora as primeiras pesquisas de síntese sonora tenham começado há mais de cem anos, a produção comercial de sintetizadores só deslanchou de verdade há cerca de 50 anos, quando os módulos de síntese passaram a implementar um conceito de controle por tensão (voltage control). Isto facilitou bastante o processo e, sobretudo, permitiu a interligação dos módulos, uma vez que suas entradas e saídas operavam com sinais de tensão elétrica (“voltagem”).

contr_sint_01

O aprimoramento do sintetizador e sua consequente viabilização comercial teve como principal protagonista o engenheiro norte-americano Robert A. Moog, que no início da década de 1960 construía e vendia theremins e outros aparelhos de áudio. Com a colaboração de alguns compositores de vanguarda, Moog começou a desenvolver circuitos eletrônicos para síntese e modificação sonora, e para controlar o funcionamento desses circuitos usava sinais externos de tensão, de maneira que podia aplicar o sinal da saída de um módulo à entrada de controle de outro, tornando o processo muito mais interessante. É bom destacar que na ocasião eles não cogitavam o uso de teclados para acionar o sintetizador, que mais parecia um amontoado de equipamentos de bancada de laboratório de eletrônica do que um instrumento. Baseando-se no conceito de controle por tensão, Moog começou a desenvolver um conjunto de módulos que podiam ser interligados de maneiras diferentes, permitindo uma variedade de resultados distintos. Esses módulos são usados até hoje em sistemas analógicos para síntese sonora, e os essenciais são descritos a seguir.

(Moog não foi o único a pesquisar este tipo de controle; Don Buchla, também norte-americano, desenvolveu na mesma época módulos controlados por tensão. Possivelmente, outras pessoas, inclusive fora dos EUA, também tenham trabalhado nesse sentido, mas foi Moog o primeiro a obter sucesso, técnica e comercialmente.)

Oscilador controlado por tensão (voltage-controlled oscillator – VCO)

contr_sint_02É o elemento que gera o sinal inicial para ser usado em todo o processo. A frequência do sinal do oscilador é proporcional à tensão aplicada à sua entrada de controle (pitch CV). Moog e outros fabricantes adotaram o padrão “1 volt/oitava”, pelo qual o aumento de 1 volt na tensão de controle faz dobrar a frequência do oscilador (ou seja, subir uma oitava).

Filtro controlado por tensão (voltage-controlled filter – VCF)

É o elemento que altera a composição harmônica (timbre) do sinal, suprimindo harmônicos e/ou realçando por ressonância determinada região do espectro. O VCF geralmente é acoplado à saída do VCO, e o tipo mais usual é o filtro passa-baixas (low-pass; LP), que corta as frequências acima de determinado ponto do espectro, mas há também os tipos passa-altas (high-pass; HP) e passa-banda (band-pass; BP). Para ajustar a frequência de atuação do filtro (cutoff frequency), é aplicada uma tensão CV na entrada de controle do módulo. Da mesma maneira que no VCO, Moog também adotou o padrão “1 volt/oitava”, de maneira que cada aumento de 1 volt na entrada de controle faz dobrar (subir uma oitava) a frequência de corte do filtro.

Amplificador controlado por tensão (voltage-controlled amplifier – VCA)

É o elemento que altera a amplitude (intensidade) do sinal, e que permite manipular o comportamento dinâmico do volume. O VCA em geral é acoplado à saída do VCF, e para controlar a amplitude do sinal de áudio é aplicada uma tensão CV na entrada de controle do VCA, que geralmente vem do módulo gerador de envelope (EG). Dependendo do VCA, a resposta do ganho à variação da tensão de controle pode ser linear ou exponencial.

contr_sint_03Gerador de envelope (envelope generator – EG)

É um circuito que produz um sinal de tensão de controle com características variáveis, que podem ser ajustadas pelo músico. Seu funcionamento é disparado a partir de um sinal de tensão chamado de gate ou trigger, produzido ao se acionar uma nota (no teclado). O sinal gerado pelo EG pode ser aplicado no VCA, no VCF ou mesmo no VCO. A maioria dos EGs possui quatro estágios ou etapas: attack (ataque; que determina o transiente inicial do parâmetro controlado), decay (decaimento; define o tempo que leva até a sustentação), sustain (o nível em que o parâmetro que está sendo controlado ficará estabilizado enquanto a nota estiver soando), e release (o tempo que o parâmetro leva para voltar ao estado inicial depois que cessa a execução da nota).

LFO (low frequency oscillator)

É outro circuito oscilador, só que sua faixa de frequências geralmente está abaixo do espectro do áudio (daí seu nome: oscilador de baixa frequência), porque sua função não é gerar sons, mas atuar como modulador de outros parâmetros. Quando aplicado à entrada do oscilador principal, o sinal do LFO produz modulação de frequência (FM), resultando no efeito de vibrato. O sinal do LFO também pode ser aplicado na entrada de controle do VCA para produzir modulação de amplitude (AM), e também na entrada de controle do filtro, modulando a sua frequência de corte e produzindo efeitos bastante interessantes. Moog usava para o LFO o mesmo circuito do VCO, já que este também podia gerar frequências muito baixas (sub-áudio), controlado pelo mesmo tipo CV (1 volt/oitava).

Além dos módulos básicos mencionados acima, existem ainda outros que também podem ser encontrados em sintetizadores analógicos, como unidade de reverberação, ring modulator e mixers de sinal, etc.

Executando notas nos sintetizadores analógicos

Como já vimos, o primeiro elemento no processo de síntese é o oscilador. Para executar as notas musicais no sintetizador analógico geralmente é usado um teclado ou então um sequenciador. Em ambos os casos, para efetuar o acionamento de cada nota são gerados dois sinais de tensão: o gate, um pulso de tensão que determina o início e o fim da nota, e o CV (control voltage), um valor de tensão que determina a altura (afinação) da nota.

Gate

contr_sint_04O sinal de disparo da nota – chamado de gate – é um pulso cuja duração equivale à duração da nota, isto é, o pulso inicia quando se pressiona a nota no teclado (note on) e cessa quando a tecla é solta (note off). O sinal do gate geralmente é injetado ao gerador de envelope (EG), disparando o primeiro estágio (attack), que será sucedido pelos estágios de decay e sustain, conforme os ajustes de tempo no EG. Quando o sinal de gate termina, cessa o estágio de sustain e então acontece o último estágio, release).

As características do sinal de gate podem variar conforme o fabricante do sintetizador, sendo que a maioria usa um pulso positivo, com intensidade maior do que +5 Vcc. Por exemplo, o Yamaha CS-15 trabalha com gate invertido, em que no estado de repouso a tensão tem que estar acima de +3V (podendo chegar até +15V), e o acionamento (note on) ocorre quando o pulso cai a 0V (podendo chegar até -10V). Há ainda alguns synths que usam apenas a transição do gate, num tipo de acionamento chamado de switched-trigger (S-trig).

CV (control voltage)

contr_sint_06O sinal que controla a altura (pitch) da nota é uma tensão fixa, aplicada à entrada de controle do módulo do oscilador (VCO ou LFO), e o valor desta tensão é que determina a frequência do oscilador. O padrão mais utilizado para isto é a escala de “1 volt/oitava”, adotado nos sintetizadores analógicos Moog, ARP, Sequential, Oberheim, Roland e outros.

Nesse padrão de escala, cada variação de 1 volt no CV faz com que o oscilador dobre a sua frequência, subindo uma oitava. Portanto, a distância de um intervalo de semitom é sempre de 83,3 mV (milésimos de volt). Um teclado com extensão de cinco oitavas, por exemplo, pode produzir sinais de CV desde 0 até +5V. A precisão e a estabilidade do sinal de CV são fatores fundamentais para que o sintetizador funcione com uma boa afinação das notas.

No oscilador, o sinal de CV vindo do teclado pode ser somado com outro sinal de CV vindo de outro módulo, como, por exemplo, um sinal oscilante de um LFO para produzir vibrato, ou um sinal fixo para efetuar transposição (pitchbend).

Existe também outro padrão de escala, adotado nos sintetizadores analógicos Yamaha CS, Korg MS e alguns modelos de outros fabricantes, que utiliza uma relação linear de Hertz/volts, de maneira que para dobrar a frequência do oscilador é necessário dobrar a tensão de controle (CV). Nesta escala, a primeira oitava é controlada por tensões que vão de 125 mV a 250 mV, a segunda oitava de 250 mV a 1V, a terceira de 1V a 2V, e assim por diante. Como se pode perceber, nesta escala o intervalo de tensão entre semitons não é constante.

ADSR

contr_sint_05O sinal produzido pelo EG (gerador de envelope), também conhecido por ADSR, geralmente contém quatro estágios e é disparado quando o módulo do EG recebe o pulso do gate (instante em que a tecla é acionada – note on). Nesse momento, o EG produz o primeiro estágio (attack), em que a tensão sai de 0V e vai subindo gradualmente até chegar no nível máximo (+5V na maioria dos sintetizadores); o tempo para atingir o máximo depende do ajuste de attack. Ao atingir o máximo, o EG entra no segundo estágio (decay), em que a tensão sai de +5V e vai caindo gradualmente até chegar no nível de sustain; o intervalo de tempo para isto depende dos ajustes do nível de sustain e do tempo de decay. O EG permanece no estágio de sustain enquanto a tecla continuar pressionada, e quando ela é solta (note off), o pulso do gate volta para o estado de repouso, acionando então no EG o último estágio (release), em que a tensão sai do nível de sustain e vai caindo gradualmente até chegar a zero, o que depende do ajuste efetuado para o tempo de release.

Como já dissemos, o sinal de tensão gerado pelo EG pode ser aplicado em qualquer módulo. O mais comum é usá-lo na entrada de controle do VCA, para criar uma variação de amplitude no som que permita caracterizá-lo como um som percussivo ou lento, por exemplo. O EG também é muito usado para controlar o comportamento do VCF, criando variações dinâmicas no timbre obtidas com o ajuste da frequência de corte do filtro por meio do sinal de tensão que sai do EG. Em alguns sintetizadores existe também uma saída invertida do envelope ADSR, que possibilita controlar o VCF “ao contrário” por meio do EG. O sinal ADSR também pode ser injetado no VCO, adicionado ao CV que vem do teclado, o que permite produzir transientes interessantes de pitch, por exemplo.

Convertendo MIDI para CV e gate

Nos instrumentos analógicos dotados de teclado, os sinais descritos acima são gerados no próprio teclado, mas nos sintetizadores modulares, do tipo Eurorack e outros, é preciso gerar estes sinais externamente.Com uma infinidade de modelos de teclados controladores MIDI disponíveis no mercado, nada mais lógico do que aproveitá-los para controlar também os sintetizadores analógicos. Mas como esses teclados “falam” digital e os synths “falam” analógico, é preciso então efetuar uma “tradução” dos sinais de um para o outro. É para isto que existem os conversores MIDI/CV.

Um conversor MIDI/CV é um dispositivo inteligente que recebe as mensagens MIDI vindas de um teclado controlador ou de um computador, processa essas mensagens e então gera os sinais apropriados de tensão de controle (CV) e de gate para acionar as notas no sintetizador analógico. Esses dispositivos possuem processamento interno e recursos de comunicação serial para poderem receber as mensagens MIDI vindas de um teclado e eventualmente também as mensagens MIDI vindas de um computador via USB. O microprocessador interno interpreta as mensagens e controla um conversor digital/analógico (D/A) que por sua vez gera o sinal de tensão CV correspondente à nota musical recebida via MIDI. Paralelamente, o microprocessador também gera o pulso de gate, que é conformado por um circuito analógico para se adequar aos critérios de polaridade e nível aceitos pelo sintetizador analógico.

Os conversores MIDI/CV mais simples geram apenas um sinal de CV e um sinal de gate, operando assim em modo monofônico. Ou seja, mesmo que sejam recebidas várias notas simultâneas do teclado MIDI, o conversor só é capaz de acionar uma nota de cada vez no sintetizador analógico – o que não chega a ser um problema, já que muitos dos sintetizadores analógicos também são monofônicos. Assim, quando recebe ao mesmo tempo várias notas do teclado (ex: um acorde), o conversor “escolhe” uma delas e gera os respectivos sinais de CV e gate. Geralmente a escolha recai na última nota que foi tocada no teclado (last-note priority), mas alguns conversores permitem programar o critério de escolha.

contr_sint_07Já os conversores MIDI/CV polifônicos possuem várias saídas de sinal de CV e de gate, porém a polifonia também é limitada. Por exemplo, um conversor com quatro saídas de CV/gate tem que escolher quatro dentre as várias notas recebidas via MIDI para gerar os sinais para o sintetizador analógico. Isto pode ser feito usando o mesmo critério já mencionado, isto é, escolhendo as últimas quatro notas recebidas via MIDI. Alguns desses conversores polifônicos também podem operar em modo multicanal, de maneira que notas recebidas em canais MIDI diferentes são enviadas para saídas diferentes de CV/gate. Por exemplo, as notas do canal MIDI 1 vão para CV1/gate1, as notas do canal MIDI 2 vão para CV2/gate2, etc. Isto é bem interessante quando se quer controlar vários sintetizadores analógicos monofônicos.

Existem dois requisitos muito importantes para o bom desempenho de um conversor de MIDI/CV. O primeiro diz respeito à precisão e à estabilidade da tensão de controle, que é o que vai permitir a execução afinada do sintetizador. Por exemplo, em um sintetizador cujo oscilador opera com a escala de 1 volt/oitava, a diferença da tensão CV entre cada semitom é de 83,3 mV, e nesse caso um desvio de 10 mV na tensão de CV, por exemplo, significa um desvio de 12 centésimos de semitom, que não chega a ser tão perceptível. Também é importante que o sinal de tensão CV tenha estabilidade, isto é, não se altere no decorrer da nota. Para gerar os sinais analógicos, os conversores MIDI/CV utilizam chips de conversão D/A, e a precisão do sinal de tensão na saída depende, basicamente, da resolução em bits na conversão. Os chips mais antigos operam em 10 bits, o que dá uma precisão teórica da ordem de 6 centésimos de semitom. Já os chips de conversão de 12 bits permitem chegar a uma precisão bem melhor, da ordem de 1,5 centésimos de semitom.

O outro requisito se refere à velocidade de resposta do conversor, isto é, o tempo que ele precisa para gerar os sinais analógicos após receber a mensagem MIDI. Atrasos acima de cerca de 4 ms (milésimos de segundo) começam a prejudicar a execução musical, produzindo uma sensação desconfortável para o músico. Então, a operação do conversor precisa ser rápida o suficiente para que ele possa colocar os sinais analógicos na saída em tempo hábil.

A faixa de notas que pode ser controlada pelo conversor é definida pela extensão da faixa de tensão de CV que ele pode gerar. Por exemplo, um conversor que pode gerar tensões de 0 a 5 V consegue cobrir até cinco oitavas no oscilador de um sintetizador analógico (considerando a escala de 1 volt/oitava). Existem conversores capazes de cobrir dez oitavas (0 a 10V), mas, obviamente, a aplicabilidade disto vai depender da faixa de CV que é aceita pelo oscilador do sintetizador que está sendo controlado.

Muitos dos conversores de MIDI/CV também interpretam outros controles MIDI, tais como pitchbend, modulation, volume, e até a intensidade das notas (key velocity). Em alguns deles, o controle de pitchbend é incorporado diretamente ao sinal de CV que vai para o oscilador, de maneira que ao se tocar uma nota e mover junto a alavanca de pitchbend no teclado MIDI, o conversor gera a tensão de CV daquela nota e adiciona a este sinal o valor de tensão correspondente à posição do pitchbend, produzindo no sintetizador analógico um resultado similar ao que acontece em um sintetizador moderno controlado via MIDI. Em outros modelos, o controle MIDI (pitchbend, modulation, etc) pode ser direcionado para uma outra saída de CV, diferente daquela que gera o sinal de controle de notas, permitindo ao músico entrar com esse segundo sinal no módulo que desejar do seu sintetizador analógico. Por exemplo, se o controle de modulation é direcionado ao sinal CV2, este poderá ser injetado na entrada de controle do filtro, de maneira que o músico possa ajustar a frequência de corte usando a alavanca de modulation no teclado.

Apesar de haver uma grande variedade de sintetizadores analógicos modulares sendo produzidos atualmente em todo o mundo, não são muitos os modelos de conversores de MIDI/CV disponíveis, e cada um deles conta com recursos diferentes, sendo que a maioria oferece só uma saída de CV, para controle da nota. A seguir, apresentaremos um modelo desenvolvido no Brasil e que, apesar de simples, reúne ótima precisão de sinal, rapidez de resposta e razoável flexibilidade de recursos.

Uma alternativa brasileira

Em contato com alguns músicos que vêm usando efetivamente sintetizadores analógicos, percebi a necessidade que eles têm de um conversor de MIDI/CV, não só para controlar os sintetizadores por meio de teclados MIDI modernos mas também para controlá-los a partir do computador e assim também poderem sequenciar em software MIDI a execução dos analógicos. Como eu já tinha desenvolvido a placa de processamento “MIDI.1”, que pode ser usada como plataforma para diversas aplicações, tais como superfície de controle e mesmo um sintetizador híbrido, resolvi então implementar o conversor sobre esta mesma plataforma.

E assim surgiu o MIDI2CV, cujo núcleo é a placa MIDI.1, que contém um microcontrolador PIC e é equipada com entrada e saída MIDI e também conexão USB para computador. O circuito de conversão do MIDI2CV fica em uma segunda placa, onde estão chips conversores D/A de 12 bits e demais componentes analógicos.

midi2cv_site_bk_peqO MIDI2CV é um conversor duofônico, com duas saídas de CV e duas saídas de gate, e pode ser configurado para operar em dois modos diferentes. No modo “2 vozes”, ele recebe as notas pelo canal MIDI 1 em “split”, gerando em CV1/Gate1 o sinal das notas MIDI recebidas acima do Dó 3 (inclusive) e em CV2/Gate2 o sinal das notas MIDI recebidas abaixo do Dó 3. No modo “2 canais”, ele gera em CV1/Gate1 o sinal das notas recebidas pelo canal MIDI 1, e em CV2/Gate2 gera o sinal das notas recebidas pelo canal MIDI 2. Isto permite trabalhar em várias situações diferentes (veja os exemplos ilustrados).

Existe ainda a possibilidade de se controlar dois sintetizadores a partir das mesmas saídas de CV/gate, já que CV1, CV2, Gate1 e Gate2 são todas duplicadas. Assim dá para tocar simultaneamente dois sintetizadores em uníssono ou transpostos.

As saídas CV1 e CV2 podem operar, independentemente, em escala de 1 V/oitava ou em escala de Hz/V, cobrindo 5 oitavas em ambos os casos. As saídas Gate1 e Gate2 também podem ser configuradas independentemente para atuar como pulso positivo (0V → +8V) ou invertido (+8V → 0V). Desta forma, é possível, por exemplo, controlar um Moog (1 V/oit) usando o canal MIDI 1 e um Yamaha CS10 (Hz/V) usando o canal MIDI 2.

A precisão dos sinais de CV é de 12 bits, com erro (medido) menor do que 5 mV (na escala de 1 V/oit). O MIDI2CV foi testado com diferentes sintetizadores analógicos, incluindo Moog e Yamaha, e também com o sistema modular produzido por Vinicius Brazil, e em todos os casos demonstrou ótimo desempenho de precisão e estabilidade. O tempo de resposta entre o recebimento da mensagem de MIDI e a saída do sinal de CV é inferior a 1,5 ms.

O MIDI2CV permite configurar a saída CV2 para ser um sinal de controle em vez de sinal de nota. Neste caso, é possível escolher entre um sinal correspondente ao controle MIDI de modulation ou um sinal correspondente à intensidade (key velocity) da nota MIDI. Com este recurso o músico pode, por exemplo, usar atuar em um sintetizador analógico aproveitndo a sensibilidade de toque do teclado controlador, tocando as notas por meio de CV1 conectado ao oscilador (VCO) e controlando a intensidade das notas por meio de CV2 conectado à entrada de controle do amplificador (VCA). Outra possibilidade é conectar CV2 à entrada de controle do filtro (VCF), por exemplo, para ajustar a frequência de corte por meio alavanca de modulation. Os diferentes modos de operação podem ser configurados por meio de uma microchave no painel, e não é preciso desligar o conversor para efetuar a configuração.

Além de ser controlado a partir de um sinal de MIDI, o MIDI2CV pode operar a partir de um computador, conectado via USB, de maneira que os sintetizadores analógicos possam ser controlados por um software sequenciador. Quando está conectado ao computador, o MIDI2CV opera também como interface de MIDI, enviando também pela sua saída MIDI Out as mensagens MIDI que vêm do computador, e passando para o computador as mensagens MIDI recebidas na entrada MIDI In. Funciona com Windows e Mac, usando o driver nativo de ambos os sistemas operacionais (não é preciso instalar driver).

O projeto do MIDI2CV foi concebido para que ele possa ser implementado como unidade autônoma (com fonte de alimentação externa) ou então montado em Eurorack, incorporado ao gabinete de um sintetizador modular. Quanto ao preço…. a estimativa é que fique igual ou inferior aos modelos existentes.

Texto publicado originalmente na revista online Teclas & Afins em maio de 2016

©2016 Miguel Ratton