MIDI, 30 anos

(publicado em fev/2013)

Criado há três décadas, o MIDI é um marco na indústria de instrumentos musicais. Uma ferramenta poderosa e abrangente que modificou significativamente a maneira das pessoas trabalharem com música. A explicação para o grande sucesso e a longa vida útil do MIDI talvez esteja na maneira única com que ele se estabeleceu como padrão universal. Uma história bem diferente do que geralmente acontece na indústria da tecnologia.

No final da década de 70 surgiram os primeiros sintetizadores controlados por microprocessadores e, com a tecnologia digital dentro dos instrumentos, nada mais natural do que usar esses recursos para fazer a interligação de sintetizadores. Era a solução para as limitações do controle remoto baseado em sinais analógicos do tipo 1 volt/oitava.

Na convenção da AES de 1981, Dave Smith, então proprietário da Sequential Circuits (fabricante dos lendários Prophet), apresentou uma interface serial para comunicação entre seus sintetizadores, que usava um cabo de áudio comum e conectores de 1/4” para transferir os dados. Na mesma época, a Roland desenvolveu uma comunicação paralela, usando um conector de 14 pinos, que chegou a equipar alguns Jupiter-8 e Juno-60. Como outros fabricantes também já começavam a desenvolver interfaces digitais com o mesmo objetivo, no evento da NAMM de 1982, Smith e o presidente da Roland (Ikutaro Kakehashi) reuniram-se com dirigentes de outras empresas do setor (Yamaha, Oberheim, Korg, Kawai) para que pudessem definir como deveria ser a interface padrão para a interligação dos instrumentos musicais modernos. Esse esforço técnico permitiu o aperfeiçoamento das ideias que já existiam, culminando num sistema de comunicação digital eficiente e de fácil implementação, batizado então como MIDI (Musical Instrument Digital Interface) e lançado oficialmente no final de 1982, com a MIDI Specification 1.0.

A parte mais interessante dessa história é o fato de que o MIDI não tem um dono. E não sendo um sistema proprietário, ninguém precisa pagar direitos de uso para implementá-lo em seus equipamentos. Por esta razão é que já no final de 1983 havia inúmeros instrumentos e equipamentos usando MIDI e comunicando-se entre si. Aquela década ficou marcada pela expansão do MIDI e mudanças radicais começavam a acontecer no segmento musical.

Em meados dos anos 80, poucos brasileiros se aventuravam no uso de MIDI ao vivo, mas três espetáculos me impressionaram muito e me incentivaram a abraçar definitivamente a tecnologia musical: o show “One Man Band”, em que o nosso colaborador Luciano Alves usava um PC sequenciando as bases de suas músicas e de um fantástico arranjo para o Bolero de Ravel; o projeto “Prisma”, com César Camargo Mariano dividindo os sintetizadores e sequenciadores com Nelson Ayres e Dino Vicente; e ainda uma apresentação de Egberto Gismonti com arranjos em sintetizadores para as músicas de Villa-Lobos.

Hoje, o MIDI tornou-se praticamente uma commodity no meio musical, presente em quase tudo, embora muitas pessoas nem percebam. Pouca gente ainda usa os velhos plugues DIN, mas os dados de MIDI estão lá, trafegando através de outros meios, via USB, FireWire ou Ethernet. Estão trafegando também quando se movem os faders e botões das superfícies de controle. Quem usa MIDI para compor suas músicas sabe quantas vantagens existem no processo de sequenciamento.

É realmente inacreditável que um padrão baseado em 8 bits e com taxa de transmissão de cerca de 32 kbps consiga sobreviver com o avanço inevitável da tecnologia. Mas o MIDI está aí para provar que isso é possível quando todos colaboram para dar certo. Vamos aproveitar mais 30 anos!