O som que se faz e o som que se ouve

(publicado em ago/2012)

Quem toca um instrumento sabe o quanto o ambiente influi na sonoridade. Músicos podem ter um desempenho melhor ou pior conforme a acústica do local onde estão tocando. Em um recital de piano, por exemplo, mesmo que músico e instrumento sejam excelentes, se a acústica da sala não for adequada o resultado sonoro ficará comprometido. Muitos compositores clássicos já tinham esse conhecimento e concebiam suas obras imaginando o resultado que teriam ao serem executadas na ambiência agradável de uma boa sala de concerto. O ambiente faz parte do instrumento.

Quando ouvimos uma música gravada, o que estamos ouvindo é, na verdade, o resultado de um processo de manipulação, que envolveu captura, processamento, edição e mixagem de sons até chegar a um resultado que acaba soando bem diferente daquilo que o artista criou originalmente – e que, em geral, soa até melhor. Captação individual de instrumentos, overdub, equalizações e efeitos são procedimentos que há muito fazem parte do processo criativo e, na maioria das vezes, é impossível conseguir outra vez a mesma sonoridade que se conseguiu em uma gravação, por não ser possível recriar novamente as mesmas condições em que a música foi feita. E ainda existe a influência do local onde se ouve a música, que pode criar uma ambiência diferente daquela que se conseguiu durante a produção do trabalho. Muitas pessoas atualmente ouvem música através de (mini) fones, o que pode tornar a percepção ainda mais diferente da concepção original – a menos, é claro, que a música tenha sido criada para ser ouvida desta maneira.

Situação semelhante acontece em shows de rock, música pop e eletrônica, onde os recursos modernos de áudio influem significativamente para o resultado daquilo que se ouve. Dos microfones às caixas do PA, passando pelo console de mixagem e seus processamentos, o som “sofre” modificações que, preferencialmente, devem deixá-lo bonito, agradável… perfeito. Mesmo que o perfeito seja diferente do original.