O importante é o resultado

(publicado em fev/2012)

O uso cada vez mais intenso de recursos tecnológicos tem tornado nossas vidas muito mais fáceis, sem dúvida. E isso não é de hoje. A invenção da escrita musical facilitou o trabalho do compositor, porque possibilitou o registro de ideias que antes provavelmente seriam perdidas. Não se pode negar que o aprimoramento das técnicas de execução e a melhoria dos instrumentos acústicos foram fundamentais para o desenvolvimento da música convencional.

O processo criativo é sempre dependente dos recursos que o artista dispõe para realizar a sua obra. Portanto, em princípio, tudo aquilo que pode ajudar na elaboração e no desenvolvimento das ideias tem que ser bem-vindo.

Há anos discute-se sobre até onde é válido o uso dos recursos de automatização da composição musical. Isto vem desde que surgiram os primeiros sequenciadores MIDI e teclados de acompanhamento automático. Aliás, a polêmica, de certa forma, começou bem antes, quando nos EUA tentaram proibir o uso do Mellotron em gravações, alegando que ele iria acabar com o emprego de muitos músicos.

Grande parte da música que se ouve atualmente foi produzida com instrumentos eletrônicos e softwares de composição que usam loops e clips prontos. Em alguns casos é difícil saber, por exemplo, se a bateria foi sequenciada ou realmente tocada por um baterista. Mas se o resultado final ficou bom, será que isto tem alguma importância?

No cinema a abordagem é bem diferente. Não há o menor pudor em usar a tecnologia para criar imagens. A produção de imagens virtuais existe desde que se criou o desenho animado e, com o aperfeiçoamento cada vez maior dos recursos de animação gráfica, no futuro será difícil distinguir um personagem criado por software de um ator de verdade. E isto nunca será um problema, já que um dos prêmios do Oscar é para os melhores efeitos visuais. Ou seja, considera-se um mérito produzir uma ótima cena no computador em vez de filmar num local de verdade.

Existe muita gente tentando fazer música simplesmente arrastando loops em trilhas e o resultado, quase sempre, é de qualidade e conteúdo bastante discutíveis. Mas também já ouvi coisas muito interessantes feitas no computador por pessoas sem formação musical. É importante notar, por outro lado, que essa possibilidade de colar, alterar, reformatar e reprocessar um loop com facilidade tem despertado a curiosidade musical em muitas pessoas que, de outra forma, jamais se interessariam em produzir música. Em geral são pessoas muito criativas e que acabam buscando um maior conhecimento de teoria musical para ampliar suas capacidades técnicas e artísticas.

Talvez o problema seja de conceito. A questão não é dividir o espaço com os “não músicos”, mas sim abrir novos espaços para outros artistas que estão descobrindo que podem usar os sons para expressar suas ideias. Como tudo no mundo moderno, a música também se pluralizou. Existem várias formas de se manifestar a criatividade musical, seja tocando um violoncelo ou juntando clips de áudio num software. E um processo não é necessariamente melhor ou pior do que o outro. Depende do resultado.