Padrões

(publicado em out/2011)

A existência de normas e padrões é um fator fundamental para a continuidade do desenvolvimento tecnológico da indústria. Quando um novo tipo de produto é colocado no mercado, muitas vezes ele acaba estabelecendo um ou mais padrões que podem perdurar por muito tempo.

No final do século XIX, Thomas Edison era um dos inventores que pesquisavam o uso da energia elétrica para iluminação. Depois de construir vários protótipos bem sucedidos e ter obtido a patente da luz elétrica, ele precisava de um meio prático para conectar a lâmpada ao circuito, e que também permitisse a sua substituição quando ela queimasse (o que era frequente). A solução foi usar uma tampa de lata querosene, que podia ser facilmente atarraxada a um soquete preso nos fios. Até hoje a rosca da tampa de querosene continua sendo o padrão nas lâmpadas elétricas, mesmo nas modernas lâmpadas eletrônicas.

Outro exemplo típico de longevidade entre os padrões da indústria está aqui no nosso universo do áudio. O popular “plugue de guitarra”, também chamado de P10 (tecnicamente especificado como IEC-60603), surgiu nos cabos usados pelas telefonistas do início do século XX para realizar as conexões entre linhas telefônicas, e por isto é conhecido também como “phone plug”. E ao que parece este componente centenário ainda vai durar algum tempo, já que a AES publicou recentemente um documento com recomendações para a compatibilização das dimensões de conectores deste tipo.

O sucesso de um padrão não depende apenas da sua qualidade ou eficácia, mas também do grau de poder de mercado de quem o propõe. No caso da rosca da lâmpada, a padronização se deu não só porque era uma boa solução, mas também porque a empresa de Edison dominou rapidamente o mercado emergente da luz elétrica. Há muitos casos em que o padrão “vencedor” não é necessariamente o melhor, como na batalha entre os formatos de videocassete Betamax e VHS, na década de 1980.

No disputado mercado tecnológico dos dias atuais, a cada momento surgem novos produtos e a empresa que sai na frente com determinada tecnologia estabelece o padrão que lhe é conveniente. Com tantas novidades surgindo em tão pouco tempo, o consumidor acaba tendo que conviver com uma variedade de padrões. Eu mesmo, tenho equipamentos que operam por conexão serial via RS-232, USB, USB2, Firewire e Thunderbolt (sem contar a minha velha impressora laser conectada via Centronics).

Há pouco tempo, achava-se que a convergência de tecnologias ajudaria a resolver esses problemas, já que produtos para diferentes aplicações passaram a compartilhar as mesmas tecnologias (processadores, memórias, LCDs, WiFi, etc.). Mas é difícil de acreditar, uma vez que nem os fabricantes de celulares conseguem padronizar seus conectores.

De qualquer forma, é importante que a comunidade técnica apoie as entidades que se empenham em padronizações e regulamentações que podem simplificar a vida de profissionais e consumidores. Quanto mais pessoas e empresas estiverem envolvidas, melhores serão os resultados e maiores serão as chances de um padrão durar mais. Mesmo que não durem tanto tempo quanto a tampa da lata de querosene nas lâmpadas.