Das células ciliadas ao protocolo Ethernet

(publicado em mai/2011)

No nosso dia a dia, dificilmente paramos para pensar sobre a quantidade de coisas diferentes que envolvem cada ação que realizamos. Embora a cadeia de eventos que fazem parte do nosso cotidiano seja imensa, a maioria de nós nem se dá conta disto. Atos simples, como mandar uma mensagem pelo celular ou mudar o canal com o controle remoto da TV, na verdade requerem inúmeras interações eletrônicas, execuções de software e uma variedade de outros processos. O universo do áudio e da música é um exemplo muito claro desta complexidade, e para entendê-lo como um todo é preciso uma visão muito abrangente.

Observando pelo princípio, verificamos que o som é, ao mesmo tempo, um fenômeno físico (ondas que se propagam) e um fenômeno psicoacústico (percepção sensorial). Assim, se quisermos entender o comportamento fundamental da nossa “matéria-prima”, é preciso conhecer não apenas a Física, mas também a engenhosa estrutura do nosso ouvido, o mecanismo de detecção das frequências nas células ciliadas da membrana basilar e ainda as diferentes habilidades sensoriais do cérebro (por que uma nota dissonante pode produzir uma sensação mais desagradável em algumas pessoas do que em outras?).

E não se pode avaliar sons e suas percepções sem levar em conta a acústica dos ambientes (e dos instrumentos!) que, no mundo real, é parte inseparável daquilo que se ouve. Durante séculos o ser humano lidou empiricamente com isto, desde o simples ato de colocar as mãos em concha à frente da boca até as elaboradas formas arquitetônicas dos anfiteatros gregos e das catedrais góticas.

Nesta complexidade interdisciplinar que é o áudio, provavelmente a eletrônica seja a parte mais importante, já que ao transformarmos um som natural em sinais eletrônicos podemos fazê-lo ultrapassar os limites do espaço (amplificando, transmitindo) e do tempo (gravando). Por causa disto, conceitos como tensão elétrica, impedância e potência, por exemplo, estão presentes no cotidiano de quem trabalha com áudio. E como tudo tem uma contrapartida, também temos que entender – e saber minimizar – os ruídos, as distorções, as interferências e os demais efeitos colaterais da realidade eletrônica.

Com a migração dos processos eletrônicos para o domínio digital, passamos então a trabalhar com bytes, dispositivos de armazenamento, protocolos de transmissão, etc. O áudio e a música estão cada vez mais digitais e as vantagens que esta transformação nos tem proporcionado são incontestáveis. Mas, além de toda a carga de conhecimento que já tínhamos que lidar, agora temos que entender também sobre sistemas operacionais, drivers, conversores, latência, Ethernet e um monte de outros parâmetros. E, obviamente, os benefícios do mundo digital também não são de graça e há novos problemas que precisam ser resolvidos. Por isto é preciso também aprender sobre quantização, dither, jitter e seja lá o que pudermos usar para melhorar o desempenho e a qualidade do som.

Som? Alguém falou em som? Pois é. O mais importante em tudo isto é não esquecer que o nosso objetivo é o som, por mais processos e meios diferentes que estejam sendo usados. Porque no final das contas lá estão elas, as nossas células ciliadas, mandando sinais para o cérebro.