Realimentação cultural

(publicado em abr/2011)

Se alguém já tentou contar quantos gêneros e subgêneros musicais existem, provavelmente desistiu antes de chegar a um número final: axé, bossa nova, reggae, hard rock, new age, punk, sertanejo, hip-hop, rock progressivo, trance, mpb, grunge, samba… é uma lista que não acaba nunca. Muitas vezes é até difícil distinguir um subgênero do outro, mas se existe a classificação é porque realmente há alguma diferença.

A proliferação de gêneros tem muito a ver com o mundo moderno, onde a pluralidade de culturas se mistura, graças à eficiência cada vez maior dos meios de comunicação. Isto tem provocado uma influência mútua entre sociedades antes muito distantes.

Houve um tempo em que os jovens eram classificados em duas correntes, geralmente diferenciados pelo comprimento dos cabelos e pelas roupas que vestiam. No começo, rock era só rock. Mas o mundo foi mudando, cada vez mais rapidamente, e foram surgindo outras formas diferentes de comportamento e de atitude. Vivemos hoje num mundo tão diversificado que ninguém mais se destaca por ser cabeludo ou por ser careca. Não existe um padrão. O mundo é segmentado, com muitos estilos e vertentes culturais convivendo ao mesmo tempo.

Neste processo de realimentação cultural, instrumentos e sonoridades, que antes identificavam épocas e lugares, passaram a ser usados em outros gêneros musicais completamente diferentes. Samba com guitarra. Rock com violino. Ópera com sintetizador. Rap com orquestra.

Quando um “maluco” resolveu eletrificar um violão, provavelmente não imaginou as mudanças que isto traria para a música, e muito menos as consequências indiretas no comportamento das pessoas e em outras características da vida moderna, como a afirmação da juventude, etc.

Assim como em todos os demais setores, os equipamentos e recursos para música também se diversificaram para atender a necessidades e desejos diferentes. Quantos tipos de pedais de efeitos e de microfones temos para escolher? Quantos modelos de sintetizadores e de softwares? Em contrapartida, temos cada vez mais dificuldade para escolher a melhor alternativa para aquilo que queremos fazer. Mas isto faz parte do mundo contemporâneo. Essa pluralidade de opções acaba propiciando resultados diferentes. Quanto mais ferramentas e instrumentos, mais possibilidades teremos.

Arte é isso. Os caminhos são muitos quando se tem criatividade e se quer ir além. É verdade que muitas vezes uma experiência de vanguarda dá um resultado ruim e pouca gente gosta, mas é importante que seja tentado. Muitas coisas surgem e nem todas ficam para sempre. Mas é essa dinâmica que perpetua a arte. O que não pode acabar é a vontade de se fazer algo diferente.