A realidade dos virtuais

(publicado em fev/2011)

A evolução dos instrumentos musicais sempre esteve relacionada diretamente com a tecnologia. No piano, por exemplo, o uso de mecanismos engenhosos e materiais apropriados é que possibilitou ao músico obter contrastes de dinâmica e controlar as múltiplas nuances intermediárias de intensidade.

O conhecimento e o domínio da eletricidade abriram novos horizontes a partir do século XX, e o forte impulso da eletrônica após a 2a Guerra Mundial, sobretudo pela invenção do transistor, foi um fator determinante para o desenvolvimento de novas ideias em algumas mentes brilhantes que buscavam outras perspectivas sonoras. No início da década de 1960, várias pessoas já estavam construindo circuitos eletrônicos para produzir sons não convencionais, de forma experimental e na base da tentativa e erro, quase sempre sem uma percepção efetiva de que aquilo pudesse ser classificado como instrumento musical, já que a forma de controlar os sons ainda era muito difícil e precária. O interesse e a colaboração de músicos nesse processo inventivo foram fundamentais para que se chegasse à concepção de um novo tipo de instrumento, com teclado e diversos outros recursos de controle, que passou a ser chamado então de sintetizador.

Não se pode negar o enorme impacto que o sintetizador trouxe à música, não só modificando estilos existentes mas também dando origem a novos gêneros e novas estéticas musicais.

Nas últimas décadas o sintetizador incorporou mais recursos sonoros e funcionais aproveitando a evolução constante da tecnologia eletrônica, dos transistores e circuitos integrados analógicos aos chips digitais e microprocessadores, até migrar para dentro dos computadores pessoais, sob a forma de software – o sintetizador virtual. A partir daí, abre-se uma porta para um novo universo, cujos limites estão muito além do que podemos perceber no momento. Como o sintetizador agora não possui circuitos físicos específicos, sua capacidade e suas funcionalidades só dependem da programação do software e do desempenho do computador, que vem aumentando de forma impressionante a cada ano.

As páginas e telas no computador estão substituindo aos poucos as estantes e racks. A possibilidade de se ter tantos instrumentos à disposição, com arquiteturas e estruturas de síntese diferentes, amplia a gama de sonoridades e dá muito mais versatilidade ao artista. Talvez o mais difícil agora seja escolher qual som usar, já que se tem tantos!

A virtualização dos instrumentos traz novos desafios para a indústria musical. O fato do usuário poder abrir duas ou mais cópias do sintetizador no computador certamente diminui a chance dele comprar mais instrumentos. Mas, por outro lado, a produção de software não requer uma estrutura industrial complexa, tem custos de fabricação bem mais baixos e permite estoque praticamente ilimitado. Pode haver vantagens para todos.