Som sem ar

(publicado em jan/2013)

Não é raro vermos uma mesa de bar com várias pessoas, todas com seus smartphones na mão, tuitando e postando no Facebook – possivelmente trocando mensagens entre si. A conversa passou para o universo virtual, onde é possível colocar mais gente no papo, estejam fisicamente no mesmo lugar ou não. Que diferença faz?

Parece estranho, mas no campo musical temos passado por mudanças talvez até mais drásticas. O modo de ouvir música vem mudando continuamente ao longo dos tempos, desde que surgiram os primeiros gramophones, quando rompemos a barreira do tempo e tornou-se possível ouvir o som de ontem. Com os sintetizadores, veio a possibilidade de se criar uma variedade de sons completamente diferentes através de um mesmo alto-falante, ou seja, a sonoridade deixou de ser dependente de uma coisa que produz vibrações de acordo com sua estrutura e seu comportamento físico. Depois vieram os processamentos digitais, que nos permitem reproduzir e inventar ambientes acústicos, simular vozes e uma infinidade de recursos que ainda não conseguimos explorar completamente.

Do jeito que as coisas avançam na ciência e na tecnologia, é possível que daqui a algumas décadas (talvez menos) inventem uma forma de se enviar sinais diretamente para o cérebro. Vamos poder escolher o que sentir e como sentir. Parece meio Matrix, mas se olharmos para trás perceberemos quanta coisa real foi substituída por processos artificiais. É só uma questão de tempo.

Por exemplo: poucas pessoas ouviram de fato o som real de um cravo. Embora ainda existam muitos instrumentos deste pelo mundo, certamente a grande maioria só o ouviu em gravações ou em simulações de instrumentos eletrônicos.

No futuro, os estúdios não existirão mais. Não do jeito que são hoje. Será tudo produzido por software, sem a necessidade de salas especiais, porque será possível captar o som original do instrumento eliminando o que não faz parte dele, e depois adicionar qualquer tipo de ambiência acústica que se desejar, tudo virtualmente.

E já que os sinais poderão ser enviados diretamente ao cérebro, também não precisaremos mais desses imensos PAs que usamos hoje. Quanta redução de espaço, peso e energia! Parece ridículo, mas observe como os sistemas de monitoração evoluíram nos últimos anos com o advento dos in-ears.

Com a possibilidade da percepção direta da música, será que finalmente teremos a situação ideal que sempre buscamos, em que nada mais irá interferir no som? Afinal, não será preciso mais se preocupar com distorções, intermodulações, cancelamentos, comb filtering e todo o tipo de problemas que afligem o áudio hoje.

Não sei. Apesar das vantagens que os processos virtuais parecem nos trazer, tenho sempre a impressão que alguma coisa foi perdida. Talvez eu já esteja meio velho para me acostumar com essas ideias, mas acho que vou sentir falta do mundo real e de todas as imperfeições que envolvem os sons que ouço pelo ar.